Do sonho de ser médica ao desejo de ser mãe
Joana conta que na verdade todos seus problemas são por causa do pai. Queixa que o pai nunca a tratou com amor, nunca cuidou dela direito. Que o pai é alcoólatra e está sempre bêbado. Que nunca foi desejada pelo pai, que queria um filho homem.
Casou-se há 3 anos, para sair da casa dos pais. Gosta do marido, mas se queixa que por ter se casado teve de abandonar o desejo que tinha de cursar medicina. Agora com 23 anos já acha tarde para tentar estudar medicina, já acha que não tem mais como estudar, pois o curso de medicina é muito longo e só se formaria “velha”, com quase 30 anos de idade. Além disso, se decidir estudar medicina, será preciso sair da cidade, pois não tem faculdade de medicina em sua cidade. Ou seja, terá de deixar o marido por pelo menos 6 anos.
Também conta estar muito frustrada por não ter filhos ainda. Diz querer muito engravidar, pois queria que o filho pudesse ter avós, o que não aconteceu com ela. Diz que se demorar a engravidar talvez os pais já tenham falecido e ela queria que o filho conhecesse os pais. Além disso, se engravidar, terá de deixar de estudar medicina.
Ou seja, frustrada pelos pais que teve, por achar que está velha para fazer medicina, e ansiosa para engravidar, apesar de estar se achando triste e deprimida com tudo.
Questões para discussão
- O quadro de Joana configura um transtorno depressivo ou um sofrimento existencial ligado a conflitos de escolha? Argumente com o texto.
- Que papel a relação com o pai desempenha na construção das queixas atuais?
- Há indicação de psicofármacos neste momento? Qual abordagem priorizar?
- Como conduzir a consulta sem decidir pela paciente (medicina × maternidade)?
- O texto descreve frustração, ambivalência e tristeza reativas a dilemas reais (estudar medicina × casamento × gravidez), sem síndrome depressiva completa (não há anedonia global, alterações neurovegetativas, ideação de morte). A hipótese mais parcimoniosa é sofrimento existencial/conflito de escolha — o que não o torna menos digno de cuidado.
- A narrativa começa por ele: “todos os problemas são por causa do pai” — rejeição, alcoolismo, preferência por um filho homem. O desejo de dar netos aos avós e a pressa em engravidar podem repetir a busca de reconhecimento paterno; a escuta deve acolher essa leitura sem transformá-la em veredito.
- Não há alvo sindrômico claro para antidepressivo; medicar agora arriscaria “tratar” uma decisão de vida. Prioriza-se psicoterapia (explorar valores, luto das opções não vividas, autonomia) e reavaliação — deixando claro que medicação entra se surgir síndrome depressiva.
- Explicitar que não cabe ao médico escolher; mapear cenários com prós/contras sentidos pela paciente (“formar-se aos 30” é tarde para quem?); questionar prazos autoimpostos e falsas dicotomias (há colegas que estudam medicina casadas, ou engravidam durante o curso); marcar seguimento para decisões sem urgência artificial.