Engolidos pelo lixo: A fatídica saga dos Irmãos Collyer

TOC
Caso real
Homer e Langley Collyer (Nova York, 1947) — o caso histórico extremo de acumulação: 120 toneladas de entulho.
NotaFicha do caso
  • Diagnóstico: Transtorno de acumulação compulsiva
  • Caso real: Homer e Langley Collyer (Nova York, 1947)
  • Idade: 65 e 61 anos (à época da morte)
  • Profissão: Advogado (Homer) e engenheiro (Langley)
DicaObjetivos de aprendizagem
  • Discutir a acumulação compulsiva grave e suas consequências extremas (caso histórico)
  • Reconhecer a relação entre perdas, luto e o início do comportamento acumulador
  • Discutir o isolamento social progressivo e seus determinantes
  • Refletir sobre os riscos sanitários e de segurança associados à acumulação

No pior caso de acumuladores de todos os tempos, em 1947, os cadáveres de dois irmãos foram encontrados em sua mansão, junto a 120 toneladas de entulho No dia 21 de março de 1947, um odor estranho emanava da mansão de 4 andares nº 2078 da Quinta Avenida, Harlem, em Nova York. Incomodado, um homem que se identificou como Charles Smith entrou em contato com a 122ª Delegacia de Polícia e alegou sentir cheiro de carniça.

Quando chegaram ao local, os policiais acharam mais que um corpo. Muito, muito mais: em uma cena surreal, toneladas de lixo se acumulavam até o teto nos quatro andares da propriedade de Homer Lusk Collyer e Langley Wakeman Collyer.

Os irmãos eram filhos do ginecologista Herman Livingston e da ex-cantora de ópera Susie Gage Frost. Quando os pais se divorciaram, continuaram a morar com a mãe na casa da Quinta Avenida. Homer formou-se em direito e Langley em engenharia, ambos na Universidade Columbia, em Nova York. Nunca se casaram.

Os primeiros sinais de acumulação começaram com a morte do pai, em 1923. Os irmãos levaram todo seu material médico para casa, ainda que não tivesse qualquer utilidade para eles. Quando foi a vez da mãe, em 1929, herdaram joias, vestidos e outros pertences que nunca sairiam de lá.

Tratamento caseiro

No começo, eles tinham uma vida comum. A situação mudou em 1933 quando Homer, vítima de uma hemorragia, perdeu a visão. Langley largou o emprego para cuidar do irmão mais velho e os dois se isolaram de tudo e de todos — menos dos oito gatos que faziam companhia para eles.

Um fator na decisão de se isolar foi o racismo. O Harlem, abrigando mansões como a deles, estava mudando de perfil, com os ricos indo embora, deixando suas propriedades, barateadas e divididas, para novos habitantes, migrantes negros do sul. O bairro se tornaria um dos epicentros do jazz e da boemia. Brancos de meia-idade, os irmãos não queriam ter nada com isso.

Acreditando que o irmão poderia voltar a enxergar, Langley inventou uma dieta que curaria a cegueira. Homer praticamente se alimentava de 100 laranjas por semana, pão preto e manteiga de amendoim. A compulsão por lixo começou quando Langley passou a colecionar jornais. Ele estava confiante de que o irmão poderia ler as notícias quando recuperasse a visão.

Isolamento absoluto

Como Langley não pagava as contas, a casa não tinha água ou eletricidade. À noite, fazia longas caminhadas para trazer água, de uma torneira num parque, e encontrar comida, às vezes comprada, às vezes pega do lixo. No qual encontrava novos itens para a coleção. Ele tentou transformar um Ford T em gerador elétrico, mas isso só funcionou por um tempo.

Questões para discussão

  1. Que fatores precipitantes e mantenedores da acumulação o caso histórico sugere?
  2. Como o isolamento social e a acumulação se retroalimentaram na trajetória dos irmãos?
  3. Quais riscos concretos da acumulação grave culminaram no desfecho de 1947?
  4. Como um caso de 1947 dialoga com a categoria diagnóstica atual de transtorno de acumulação?
  1. Precipitantes: as mortes dos pais (1923 e 1929), com a herança literal dos pertences intocáveis — o luto convertido em guarda de objetos; depois a cegueira de Homer (1933) e a racionalização de Langley (guardar jornais “para quando o irmão voltasse a enxergar”). Mantenedores: reclusão, desconfiança do entorno e ausência de qualquer intervenção externa por décadas.
  2. Em espiral: quanto mais acumulavam, mais inviável receber alguém; quanto mais isolados, menos contrapontos à lógica interna do acúmulo (sem água, sem luz, saídas só à noite). O relato também mostra o componente social — a recusa ao bairro em transformação alimentou a fortaleza de entulho.
  3. Soterramento físico (Langley morreu esmagado por uma armadilha de entulho que ele próprio criou), inanição do irmão dependente, insalubridade extrema, e a impossibilidade de resgate — a polícia levou dias escavando 120 toneladas.
  4. O DSM-5 tornou a acumulação diagnóstico próprio (antes subtipo de TOC): dificuldade persistente de descartar, sofrimento/prejuízo, espaços inutilizáveis — tudo presente aqui em grau extremo. O caso também ilustra insight ausente e a variante com aquisição excessiva (coleta noturna de itens).
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