Sobrecarga somática do cuidado

Somatoformes
Caso clínico
Paula, 16 anos — depressão e tentativa de suicídio após abuso na infância e revitimização judicial.
NotaFicha do caso
  • Diagnóstico: Depressão com tentativa de suicídio em contexto de trauma (abuso sexual na infância)
  • Nome fictício: Paula
  • Idade: 16 anos
  • Profissão: não informada
DicaObjetivos de aprendizagem
  • Discutir as consequências psíquicas do abuso sexual na infância e na adolescência
  • Reconhecer a revitimização (vitimização secundária) no percurso judicial
  • Avaliar o risco de suicídio em adolescentes
  • Discutir o papel da vergonha e do estigma no agravamento do quadro depressivo

Paula, jovem de 16 anos vem em consulta com a mãe com a história de ter sido abusada pelo próprio pai na infância. Depois de muitos anos resolveu contar para a mãe, quando já estava separada do pai. Decidiram então levar o caso na justiça para pedir punição ao pai.

O processo se arrasta na justiça há 2 anos, com diversas situações constrangedoras. Teve de contar detalhes traumáticos ao juiz na frente de diversas pessoas. Além disso, não ter conseguido a punição que pretendia para o pai a deixou bastante frustrada e decepcionada.

A frustração somada à vergonha de que hoje todos sabem que foi abusada a deixaram cada vez mais angustiada e deprimida, a ponto de ter tentado suicídio.

Questões para discussão

  1. Que consequências psíquicas do abuso sexual na infância o caso ilustra — e por que a revelação costuma ser tardia?
  2. O que foi a revitimização de Paula no percurso judicial? Como o sistema poderia tê-la protegido?
  3. Estruture a avaliação de risco após a tentativa de suicídio: o que perguntar, o que pesa na decisão de internar?
  4. Como vergonha e estigma operam na manutenção do quadro depressivo?
  1. Depressão, angústia crescente e tentativa de suicídio anos após o trauma — o abuso intrafamiliar produz efeitos tardios mediados por vergonha, culpa e ruptura da confiança básica. A revelação tardia é a regra, não a exceção: dependência do agressor, medo de não ser acreditada, proteção da família — Paula só contou quando a mãe já estava separada do pai.
  2. Repetir o relato traumático diante do juiz e de estranhos, a exposição pública do caso e a impunidade final — o processo que deveria reparar tornou-se novo trauma (vitimização secundária). Proteções possíveis: depoimento especial gravado (Lei 13.431/2017), tramitação em segredo de justiça, preparo da adolescente e acompanhamento psicossocial durante todo o processo.
  3. Perguntar: método, planejamento e letalidade percebida da tentativa; arrependimento ou frustração por ter sobrevivido; ideação atual, plano e acesso a meios; suporte familiar real (a mãe é protetiva). Pesam para internar: intenção persistente, método letal, ausência de rede, agravo dos fatores precipitantes. Em qualquer cenário: plano de segurança escrito, retirada de meios, seguimento em dias — não em meses.
  4. “Hoje todos sabem que fui abusada”: a vergonha desloca a culpa do agressor para a vítima e transforma a exposição social em tormento diário. Clinicamente, é alvo terapêutico direto — psicoterapia focada no trauma que devolva a Paula a narrativa (a culpa tem endereço, e não é ela) e proteja seus espaços (escola, redes) de mais exposição.
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