Solidão, envelhecimento e a “vida desperdiçada”
Antônia, 62 anos, solteira, não tem filhos, mora numa cidadezinha do interior de minas.
Vem em consulta com queixas de ansiedade. Inicia a consulta dizendo estar em dúvidas se precisa usar alguma outra medicação. Está usando BUPROPIONA 150mg + DONAREN RETARD 50mg de noite há cerca de 3 anos. Mas diz que nas últimas 3 semanas está se sentindo bem mais ansiosa novamente, com dificuldade para dormir, preocupada o tempo todo, tem tido sentimentos de vazio, achando tudo sem graça.
Depois de alguns minutos de consulta conta estar se sentindo frustrada com a vida, pois percebe que deixou de viver para cuida da mãe, que hoje está com 90 anos de idade e com Alzheimer e necessita agora de mais cuidados do que antes.
Antônia é solteira, não tem filhos, mora ao lado da casa da mãe. Tem 4 irmãos homens, mas é ela que cuida mais da mãe, fica com ela todos os dias, dorme com a mãe 3 dias na semana. Nos finais de semana também fica com a mãe.
Antônia tem um namorado há 8 anos, mas nunca se casaram por que ela tem de cuidar da mãe. O namorado de Antônia mora em SJDR, e só pode estar com ela nos finais de semana. Outro dia o namorado a convidou para ir numa festa de família em SJDR e ela recusou o convite, pois precisava ficar com a mãe. Esse evento a fez lembrar de uma situação ocorrida há 25 anos atrás, na qual a mãe, como sempre, fez um grande drama quando ela foi convidada a ir no casamento da afilhada. A mãe nesse dia alegou que se ficasse sozinha iria morrer, que era um absurdo ela ser deixada sozinha etc. Antônia lembra que nesse dia, há 25 anos atrás (aos 37 anos de idade) , também abdicou de um evento especial para cuidar da mãe. Percebeu que há mais de 25 anos sua vida está na mesma situação, sempre abdicando de sua vida em prol da mãe. Hoje, aos 62 anos de idade, solteira, sem filhos, morando longe do namorado, percebe que a vida passou e não viveu.
Na última semana ela e a mãe tiveram COVID-19, ambas passaram muito mal, mas não precisaram ser entubadas. A mãe piorou do estado demêncial que já vivia. Antônia se recuperou fisicamente, mas a perspectiva de morrer a deixou bastante angustiada, pois ficou mais claro que não viveu até hoje sua própria vida.
Está sofrendo por não saber o que fazer. Como ainda poderá viver o que lhe resta de vida?
Questões para discussão
- Recaída ansioso-depressiva, crise existencial precipitada pela COVID-19 — ou ambas? Justifique.
- Identifique os sinais de sobrecarga do cuidador e seus riscos.
- O episódio de 25 anos atrás (o casamento da afilhada) reaparece agora. O que essa repetição revela da dinâmica mãe-filha?
- Que propostas terapêuticas realistas você faria para a pergunta final de Antônia — “como viver o que resta”?
- Ambas, entrelaçadas: há recorrência sintomática (insônia, preocupação constante, vazio, anedonia) em quem já usa antidepressivo há 3 anos — e há o gatilho existencial: a quase-morte pela COVID tornou inescapável o balanço de 25 anos adiados. Tratar só o sintoma perderia o essencial; ignorar o sintoma abandonaria a paciente à angústia.
- Dedicação diária integral, noites com a mãe 3×/semana, fins de semana ocupados, renúncia sistemática a eventos e ao casamento, irmãos ausentes da divisão de cuidado. Riscos: depressão do cuidador, adoecimento físico, ressentimento e colapso do próprio cuidado quando a cuidadora adoecer.
- O drama materno de hoje repete o de 1999 (“se ficar sozinha vou morrer”) — uma dinâmica de controle por culpa que antecede em décadas o Alzheimer. Antônia percebeu isso sozinha; a terapia pode ajudá-la a distinguir o cuidado devido à mãe doente da servidão histórica à mãe que sempre exigiu tudo.
- Redistribuir concretamente o cuidado (reunião familiar com os 4 irmãos; cuidador contratado ou centro-dia; direito legal a respiro), psicoterapia focada em culpa e projeto de vida (o namoro de 8 anos é um começo óbvio), revisão farmacológica se a síndrome persistir, e legitimar em consulta: cuidar de si não é abandonar a mãe.